Meu marido que me perdoe, mas estou aficionada por Walcyr Carrasco e apaixonada pela sua forma de escrever, que tem me deixado encantada. Confesso que sou iniciante como fã, mas me apaixonei logo de cara, ao ler “Amada Luna” e ainda no decorrer do livro “Anjo de quatro patas”, primeiro de muitos que ainda pretendo ler, desse belíssimo autor.
E foi inspirada em Walcyr Carrasco e nas emoções que tenho sentido ao ler “Anjo de quatro patas”, que resolvi contar essa história canina, é verdade que ela não chega aos pés da original, mas é a minha história canina.
O Amor lhe abana o rabo
Minha mãe sempre gostou de cachorros pequenos, Pinscher ou Pintcher, como dizem, aqueles pequeninos, cor de mel, que tem os olhinhos “esbugalhados” e orelhas enormes, barulhentos a beça e que adoram morder o calcanhar das visitas, esses mesmo, minha mãe adorava esses e sempre tínhamos um em casa. Logo viravam “os donos do pedaço”, ela cuidava deles como se fossem alguém da família e era assim que nos sentíamos, com relação aos bichinhos, minha irmã mais nova principalmente, sempre adoecia pelos cãezinhos lá de casa.
Confesso que até certo tempo eu não era muito fã de cachorros, sempre preferi os gatos, eu era nova, eles davam menos trabalho, eram “independentes”, enfim... Coisas de quem não quer ter muita responsabilidade. Com o passar do tempo, aprendi a gostar e a admirar os cães, por seu carinho, por sua lealdade e ultimamente, tenho sentido muita vontade de ter um cãozinho comigo.
Mas voltando às cadelinhas, primeiro veio a Lice, ganhei de uma ex-aluna minha, era a coisa mais linda do mundo, pequenina e cor de mel, ela me convenceu que era da raça Basset, eu acreditei. Vocês não sabem o sacrifício que foi levá-la para casa, eu trabalhava em uma escola muito longe de onde eu morava, tive que pegar três coletivos, carregando livros e uma caixa de sapato que não parava de se mexer, com aquela coisinha minúscula tentando sair de dentro, foi um sufoco.
Chegando em casa foi aquela confusão, minha mãe dizia que não ia aceitar a filhotinha lá, que eu ia ter que achar um outro dono para ela, e sempre a convencíamos dizendo que tudo bem, que ficaria ali só até achar um dono, assim passavam-se os dias e nada de dono novo, até que ela se afeiçoava ao bichinho e pronto.
A Lice foi crescendo, crescendo e de Basset só a vaga lembrança, ela ficou assim uma mistura estranha e parecia uma Pinscher “bombada” sabe, maior que o normal, mas sempre foi muito bonitinha, minha mãe diz que ela usa maquiagem permanente, porque tem ao redor dos olhos, um contorno preto, bem forte, como se tivesse usado rímel e delineador.
Depois veio a Mel, por acaso, um garoto, vizinho nosso, bateu no portão, ao abrir vi o menino com um embrulho no colo, era um monte de pano e não dava pra ver nada além disso. Ele começou a explicar, que tinha pegado o filhotinho, porque o dono queria matar os bichinhos, mas que a mãe dele também não o tinha deixado ficar com o cachorrinho, se a gente não podia cuidar, com pena, acabei pegando “o embrulho”, até achar outro dono. O bichinho era tão pequeno, mas tão pequeno, que mais parecia um ratinho do que um cachorro, não abria os olhos, nem se movimentava direito, me vi mãe de recém-nascido novamente, passei noites e noites acordada, alimentando a cachorrinha com uma mamadeirinha para bebês.
Ela sobreviveu, recebeu o nome de Mel, não cresceu muito, e também não se tornou uma cadela bonitinha, a Mel é algo sem explicação, pequena, magra, com grandes orelhas e um pelo que mais parece aqueles ursinhos antigos de rifa, espichados e estranhos, um pouco para cada lado, nem cobre o corpo todo, ou seja, ela é tão feinha, mas tão feinha, que se tornou engraçadinha. E Lice e Mel viraram o xodó da minha mãe e dos demais, mimadas e paparicadas por todos. Enfim...
Durante 29 anos da minha vida, sempre estive perto da minha mãe, depois de adulta eu tinha uma casinha pequena em frente à dela, no mesmo quintal. Com ela sempre por perto eu cresci, vivi, tive relacionamentos, tive meus dois filhos, mas nunca passei uma semana longe dela.
Até que conheci um moço pela internet e começamos a namorar, com o pequeno detalhe que ele morava em Manaus e eu em Goiânia, só 3.291 km de distância, mais ou menos. Foi um namoro bem rápido, poucos meses depois ele foi me visitar e eu tive certeza de que era o grande amor da minha vida, foi lindo! Com 4 meses de namoro eu recebi o convite para morar com ele em Manaus, deixaria minha mãe, meus filhos, minha casinha, tudo para tentar ser feliz ao lado desse amor, aceitei. Acertei tudo com a minha família e me mudei pra Manaus em dezembro de 2009.
Os primeiros momentos foram muito sofridos, a saudade machucava, foi muito difícil me acostumar, me adaptar, mas eu fui resistindo, consegui um emprego assim que cheguei e as coisas foram se acertando aos poucos. Durante um ano inteiro mantive contato com minha família apenas por telefone ou pela internet, além da preocupação e da saudade da minha mãe e dos meus filhos eu sempre perguntava pela Lice e pela Mel, que estavam lá firmes e fortes. Eu cheguei a perguntar pro meu marido, se elas se lembrariam de mim quando eu fosse lá.
Pouco mais de um ano depois de sair de casa, pude finalmente voltar para passear, minhas férias tão esperada tinha enfim chegado. Embarquei para Goiânia cheia de presentes para família toda e cheia de saudade. Minha mãe me buscou no aeroporto com meus filhos, podem imaginar a emoção que senti.
Grande foi a minha surpresa ao chegar em casa e sair do carro, a recepção que tive da Lice e da Mel, elas ficaram tão alegres em me ver, que pareciam elétricas, pulando, correndo, saltando uma sobre a outra e nas minhas pernas, a Lice (tadinha) fez até xixi de tanta euforia. Eu jamais imaginei que elas ficariam tão felizes em me ver. Eu achava que elas nem se lembrariam de mim. Durante as duas semanas que fiquei lá, elas não saíram de perto de mim, sempre me fazendo companhia, pra todos os lados da casa que eu fosse elas me acompanhavam, abanando o rabo, querendo brincar, alegres que dava gosto de ver.
Quando chegou o dia de voltar pra casa, como se já não bastasse a tristeza de ter que me despedir da minha mãe e dos meus "filhotes", Lice e Mel também vieram se despedir, abanando os rabinhos, só que dessa vez mais encolhidinhas, me lamberam e me olharam como quem diz: Volte logo!
Susane Alves Vieira
* Ao meu querido e admirado Walcyr Carrasco.


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